[...] E se já não sinto os teus sinais pode ser da vida acostumar. Será, Morena?
Na delicadeza das palavras procurei escrever sua presença e descrever o quanto é fascinante pensar você. Entenda que minhas mãos livres, que agora se dedicam à escolha das palavras certas, gostariam de estar presas às suas para te prensar: te segurar: e não te deixar voar. E que meus lábios secos, que agora se dedicam ao deserto silêncio da imaginação, gostariam de molhar os seus e desaguar no seu mundo até você florescer e germinar e brotar no jardim da minha poesia, como as lírios peruanos: suas flores preferidas: que sobrevivem muito bem sozinhas, certo, mas vivem muito mais quando têm alguém para alegrar suas dores ou admirar a beleza de suas cores. Entenda também que quando não ouvi sua voz: escrevi o timbre doce e delicado do som das suas palavras. Quando não te vi: descrevi toda a grandeza e a escuridão que habitam na profundeza lírica dos seus olhos: grandes e quase negros. E quando não consegui te tocar ou alcançar a maciez da sua pele: improvisei literalmente a textura da sua derme: tão branca: tão macia: e pude tatuar palavras que eu não sabia que existiam: e pude tatear tua alma como quem acaricia estrelas no céu, sem saber que elas também brilham e se espalham no chão: sem saber que elas brilham e se espelham em você para iluminar o mundo: o meu mundo.”
Eu me chamo Antônio. 
Fiz de ti, elemento vital de minha essência.

Dos teus olhos, saídas de emergência da monotonia de meus dias, que se arrastam pelas arestas do tempo retardando cada vez mais nossos encontros. Fiz da tua boca meu maior vício; alimento vital para minh’alma sedenta e cansada; paliativo para o caos em mim. Fiz ainda de teus braços, alicerce para minhas estruturas bambas e arcaicas. Da sua voz, a fresta de paz que atravessa minha mente barulhenta acalmando-a; cessando todo e qualquer ruído causado pela mesma; dando-me pela primeira vez o gosto na prática do adjetivo “sereno”. E aí eu te insiro em minha loucura; te mostro meus caminhos e os atalhos até o que chamam de coração; te entrego as chaves e escancaro as portas do mesmo; faço de mim tua casa; e em meio ao tédio da rotina te faço entender que quando você está presente rejuvenesço, enobreço; sou.

R-etalho.

O amor é feito hiato. A princípio é dito ditongo, mas depois torna-se tritongo e logo mais, hiato. É assim todo encontro vocálico, em meio a tantas consoantes e vogais perdidas vez ou outra, duas partículas que se sintonizam e saem da boca, com uma leveza muito bonita. No mais, nem sempre é fácil o ônus, por vezes o encontro é tritongo, e o que sujeito/vogal que está no centro tem dois parceiros, lado a lado - seja um segredo, seja menage a trois da gramática - casos tritongos são corriqueiros entre o amor e as palavras. Todavia, o amor é feito hiato, mas só o é, de fato, quando é amor legítimo. Explico, é que hiato vem do latim: fenda, lacuna, falha, falta, intervalo. O amor é isto, tal qual Shakespeare e seus desfechos trágicos, dois elementos num momento juntos, estarão, logo mais separados.